A última vez que Ela tinha visto algo tão bonito fora antes de nascer. Ou pelo menos era isso que ela pensava. Não se lembrava de muita coisa de antes de nascer, e mesmo com todo mundo dizendo que o ante-nasce era algo para apagar da memória, algo feio e errado, algo herético, Ela ainda se agarrava àquela memória como se fosse a única coisa que a mantivesse viva.

Todo o resto podia ser esquecido, mas não aquilo.

Aquilo nunca.

A lembrança era vívida, porém difícil de descrever. Ela vira cores que nunca imaginaria, ouvira sons impossíveis de serem produzidos por quaisquer instrumentos. Seres passeavam pelo céu e o chão era onde você quisesse. Ela se via de dentro para fora e de fora para dentro. Entendera tudo o que podia ser, viu todos os rostos e corpos que podia escolher, um emaranhado de cobras mostrando os possíveis caminhos da sua vida.

Viu seus parceiros e parceiras e tudo o que podia fazer com eles. Para eles. Ouviu o passar do tempo e a mudança das eras. Ela absorveu tudo isso e começou a tomar sua decisão.

Escolheu um corpo. Um rosto. Sua mente fora escolhida para ela, e com ela fazia suas escolhas. Todo o resto não cabia a ela. Uma das cobras se separou do resto. Era negra como o vazio e vinha diretamente para Ela. Ela se ajoelhou e a cobra subiu pelos seu joelhos até os seus ombros.

“Meu nome é Tudo, e é isso que sou”, disse a cobra. “Eu escolhi você.”

Ela pensou em algo para responder, e descobriu que não sabia falar.

Tudo se acomodou nos seios do corpo que ela havia escolhido e pareceu adormecer, mas sua voz ecoou naquele lugar.

“Eu escolhi você e também o seu nome. Todo o resto foi por sua conta, mas eu não posso deixar-te escolher um caminho.”

Os sons indescritíveis pareciam pegar as palavras de Tudo e transformá-las em verdades absolutas.

“Eu sou tudo, e esse é o meu nome”, repetiu a serpente, e isso agora era indiscutível.

Ela acariciou Tudo e ela se dividiu ao meio.

“Eu sou Rei, e isso serei”, disse uma metade.

“Eu sou Rainha, isso já sou e já fui,” falou a outra metade, “Rei me entende e eu o satisfaço.”

“Já é tempo”, disseram Rainha e Rei, com duas e com mil vozes ao mesmo tempo.

Rei subiu pelo seu pescoço entrou em sua mente, e Ela agora sabia falar. Suas primeiras palavras seriam uma mentira.

Rainha desceu por sua barriga e enterrou-se no espaço entre suas pernas, e Ela pela primeira vez sentiu prazer. A segunda vez seria um erro.

 

 

Ela se distanciou novamente do homem que havia lhe proporcionado seu segundo vislumbre do mais que belo. Sua adaga ainda estava em seu pescoço.

“Ninguém merece se igualar ao meu Início”, ela disse olhando diretamente nos olhos que perdiam a vida na sua frente. Ela puxou a lâmina, virou-se e se afastou antes de o corpo cair no chão. Nenhum som podia ser ouvido na floresta. Ela respirou fundo e começou a caminhar.

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