fly me

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Faz três dias que chove sem parar. Faz três dias desde a última vez que você teve respostas dela. A última vez que vocês se falaram foi na véspera do ano novo, na virada do século, do milênio. Você disse que tinha câncer, que não tinha muito tempo de vida, ela disse chorou e disse que não conseguia aguentar, que precisava de um tempo pra pensar. Tempo é uma das poucas coisas que você não tem, uma das poucas coisas que ela tem de sobra, mas você decidiu aceitar a decisão dela. Uma notícia dessa é pesada, e você só contou a ela por que estava realmente começando a sentir alguma coisa, pela primeira vez em alguns meses você sentia algo mais do que apatia. Ela ainda estava na escola, tinha reprovado algumas vezes, porque quis, para irritar os pais, para não ter que decidir o que fazer da vida, para continuar vivendo do mesmo jeito que viveu a vida inteira. O primeiro ano do século seria seu último na escola. Ela decidiu que já estava na hora de seguir em frente, todo mundo da sua escola era infantil demais.

Faz sentido.

A primeira vez que você a viu foi numa festa de Natal, duas semanas atrás. Seus pais eram amigos dos pais dela. A festa estava cheia como todas as festas desse tipo, você não aguentava mais a falsa alegria de todo mundo, a esperança de mudança no novo ano, a ansiedade em começar um novo ciclo, igual ao anterior, mas que podia ser diferente. Você estava na varanda, um cigarro nos lábios, seu isqueiro na gaveta da sua mesa. Uma mesa pequena, duas cadeiras e um copo abandonado, meio vazio e sujo de batom. Você se senta numa das cadeiras e apoia os pés na grade da varanda. O seu copo está praticamente vazio, mas você não tem a força de vontade de ir enchê-lo novamente. Seus olhos estão pesados e você os fecha. A música atravessa as portas de vidro e chega até seus ouvidos abafada, fraca, etérea. Frank Sinatra, nada além do esperado quando pessoas da alta sociedade se reúnem. Uma pausa, um silêncio momentâneo, tempo suficiente para alguma coisa cair e quebrar no outro cômodo, e a próxima música começa a tocar. Essa você não reconhece. Não se importa em tentar. Continua de olhos fechados, balançando o copo em sua mão, fazendo o pouco que ainda resta dentro dele se mover em círculos.

Outra música começa a tocar. E mais uma. Você queria estar em casa, fazendo o mesmo que estava fazendo lá. Mas na sua casa. Na sua varanda. Com seu isqueiro e um cigarro apagado. Você abre os olhos e se ajeita na cadeira. Demora alguns segundos até você perceber que alguém está sentado na outra cadeira, tudo que você percebe é uma respiração calma e constante. “Achei que você estava dormindo,” ela diz. “Posso ir embora.” Ela já está se levantando, bebendo o último gole do que quer que fosse que estava naquele copo.

“Tudo bem” é tudo que você diz. Ela para e olha pra você, dúvida no olhar. “Eu não me importo, pode ficar”, você conclui. Ela se senta de novo, apoia os pés na grade.

“Eu acendo, se me der um”, ela continua olhando para a cidade, como se não tivesse dito nada.

“Só tenho esse. Não devia ter nem ele, na verdade.”

“Divida então.” Outra pausa. “Espírito natalino e tudo mais”, sua mão estendida, um isqueiro descartável e aceso. Você se inclina e acende o cigarro, dá um trago e entrega a ela. Ela o coloca nos lábios, mas não fuma.

A última vez que Ela tinha visto algo tão bonito fora antes de nascer. Ou pelo menos era isso que ela pensava. Não se lembrava de muita coisa de antes de nascer, e mesmo com todo mundo dizendo que o ante-nasce era algo para apagar da memória, algo feio e errado, algo herético, Ela ainda se agarrava àquela memória como se fosse a única coisa que a mantivesse viva.

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SOBRE TER VINTE

SOBRE TER VINTE

Hoje eu terminei de ler o primeiro livro da série A Torre Negra, “O Pistoleiro”. Na minha pressa para começar a leitura, pulei os textos iniciais e parti direto para a história, só retornei hoje. O primeiro texto presente na edição que eu escolhi tem o título “On Being Nineteen” (Sobre Ter Dezenove [anos]), e é essencialmente um relato do King sobre o que ele queria escrever, por que ele queria escrever, como ele queria escrever.

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PRIMEIRA IMPRESSÃO: Class

PRIMEIRA IMPRESSÃO: Class

Sinopse: Class é uma série britânica de drama e ficção científica, e um spin-off de Doctor Who. Foi criada e escrita por Patrick Ness, que também produz ao lado de Steven Moffat, showrunner e escritor principal de Doctor Who. A série vai focar num grupo de seis estudantes e funcionários da Coal Hill Academy, lidando com ameaças alienígenas.

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Resenha: A Gathering of Shadows, Tons de Magia Vol.2 (V. E. Schwab)

Resenha: A Gathering of Shadows, Tons de Magia Vol.2 (V. E. Schwab)

                Sinopse (do primeiro volume): Kell é um dos últimos Viajantes — magos com uma habilidade rara e cobiçada de viajar entre universos paralelos conectados por uma cidade mágica. Existe a Londres Cinza, sem magia alguma. A Londres Vermelha, onde vida e magia são reverenciadas, e onde Kell foi criado ao lado de Rhy Maresh, o boêmio herdeiro de um império próspero. A Londres Branca, um lugar onde se luta para controlar a magia, e onde a magia reage, drenando a cidade até os ossos. Oficialmente, Kell é o Viajante Vermelho, encarregado das correspondências mensais entre a realeza de cada Londres. Extra-oficialmente, Kell é um contrabandista, atendendo pessoas dispostas a pagar por mínimos vislumbres de um mundo que nunca verão. Fugindo na Londres Cinza, Kell esbarra com Delilah Bard, uma ladra com grandes aspirações. Magia perigosa está à solta e a traição espreita em cada esquina. Para salvar todos os mundos, Kell e Lila primeiro precisam permanecer vivos. Continue reading “Resenha: A Gathering of Shadows, Tons de Magia Vol.2 (V. E. Schwab)”

RESENHA: Odd Para Sempre, Odd Thomas Vol.2 (Dean Koontz)

RESENHA: Odd Para Sempre, Odd Thomas Vol.2 (Dean Koontz)

     Sinopse: Odd Thomas, um jovem cozinheiro de uma cidadezinha californiana, vê e ajuda os mortos da melhor forma que pode. Um dia Odd se sobressalta ao ver um estranho sentado ao balcão do restaurante onde trabalha: ele está cercado de bodachs, entidades que só se mostram quando algum desastre de proporções gigantescas está para acontecer. Na casa do suspeito ele encontra um arquivo sobre os piores assassinos da história e um portal para os bodachs – indícios suficientes para Odd temer um assassinato em massa. Com a ajuda de um grupo de amigos, ele se lançará em uma corrida contra o tempo para salvar os habitantes.

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RESENHA: Winger (Andrew Smith)

RESENHA: Winger (Andrew Smith)

Sinopse: Ryan Dean West tem catorze anos e já está quase terminando o ensino médio em um internato para crianças ricas. Ele está morando no Opportunity Hall, o domritório dos problemáticos, no mesmo quarto que o maior valentão do time de rugby. E ele está perdidamente apaixonado por sua melhor amiga Annie, que vê nele um “garotinho”. Com a ajuda do seu senso de humor, colegas do time de rugby e sua inclinação para desenhar tirinhas, Ryan Dean consegue sobreviver as compicações da sua vida e até encontrar um pouco de felicidade pelo caminho. Mas quando o inimaginável acontece, ele tem que descobrir como se segurar ao que é importante, mesmo quando parecer que tudo desmoronou.

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PRIMEIRA IMPRESSÃO: Spotless

PRIMEIRA IMPRESSÃO: Spotless

     Sinopse:  Em Londres, Jean Bastière esteve levando uma vida familiar calma com sua esposa e seus dois filhos por quinze anos. Perfeitamente integrado, ele gerencia um negócio de limpeza de cenas de crimes. O equilíbrio de sua existência harmoniosa é perturbado, no entanto, quando seu irmão, Martin, que ele via há anos, reaparece. Com seu irmão, os segredos e feridas de passado de Jean ressurgem. Confrontado com demônios antigos que ele havia escolhido enterrar, Jean também enfrentará outros problemas. Quando Martin chega com o corpo de uma mulher escondido e sua van, nenhum dos dois suspeita que um ano de consequências sérias está prestes a começar.

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Análise do Jogo: Journey

Análise do Jogo: Journey

A vida é uma longa e difícil jornada repleta de obstáculos em todos os lugares… cabe a você continuar por essa árdua estrada e conquistar a sua vitória, ou ser influenciado por outros que te fazem desistir de tudo. Mas lembre-se, sempre haverá aqueles que desafiarão essa mesma estrada, se encontrando na mesma situação que a sua, e também, precisarão de ajuda. Cabe a você decidir caminhar por esse caminho sozinho, ou conquistar aliados que possuem o mesmo objetivo, pois o trabalho em equipe facilita a solução de desafios aparentemente impossíveis de serem resolvidos sozinho. Nunca desista de seus objetivos. Continue reading “Análise do Jogo: Journey”